QI Tech quer ser a 'AWS do crédito' e prepara novas aquisições

Em dezembro, a QI Tech – que fornece soluções tecnológicas de serviços financeiros para fintechs, gestoras e empresas de diversos setores – anunciou a compra da startup de prevenção a fraudes Zaig, em sua primeira aquisição após a vultosa rodada Série A de US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 270 milhões, no câmbio da época), liderada pelo GIC (Fundo Soberano de Cingapura).

O plano não é parar por aí. A fintech prepara para este ano mais duas aquisições – uma DTVM (distribuidora de valores) e um negócio que agregue serviços dentro da jornada ‘one-stop-shop’ de crédito que a QI Tech vem construindo.

“Existem algumas ‘caixinhas’ que estamos olhando. Pode ser [serviço] de cobrança, white-label, régua de relacionamento”, diz Marcelo Bentivoglio, sócio responsável pela área de estratégia, ao Finsiders. “Todo cara que vai dar crédito precisa conhecer minimamente o cliente, e KYC é fundamental.”

Sobre o andamento das transações, Marcelo diz que a aquisição de uma DTVM está numa etapa ainda inicial, sem qualquer negociação mais adiantada. “Em DTVM, estamos mais no ‘screening’ ainda, pescando. O outro M&A está andando, mas não ainda na fase ‘hot’”, afirma. “Queremos ter certeza de que [esses negócios] terão sinergias e o cross-selling de produtos como tivemos com a Zaig, que já triplicou o faturamento desde que fizemos a aquisição.”

Enquanto não fecha a compra de uma distribuidora – o que lhe permitiria oferecer serviços de administração e custódia de fundos para gestoras (alô, Vórtx!), principalmente no mercado de FIDCs –, a QI Tech aguarda a aprovação no Banco Central (BC) para operar sua própria DTVM.

A expectativa é que a licença saia ainda neste primeiro semestre. A ideia é correr com os dois movimentos em paralelo. “Até o fim do ano, quero já estar faturando com a DTVM, chacoalhando o mercado de FIDCs, principalmente”, diz Marcelo.

“Com a DTVM, vamos conseguir automatizar o processo de cessão e endosso de CCBs [Cédulas de Crédito Bancário]”, explica. “Hoje passo o dia inteiro emitindo CCBs, e aí no final do dia gero termo de endosso e mando para o fundo aprovar e comprar. Tenho um processo complexo porque tem ineficiência de sistema. Mas tenho 100% das operações emitidas e 100% cedidas.”

A QI Tech também vem aumentando a equipe – que estava em 20 pessoas pouco antes da Série A, e agora já bateu 80. “E devemos dobrar até o fim do ano”, diz Marcelo. O crescimento, segundo ele, não depende de novas injeções de capital nos próximos meses. “Temos espaço para investimento com a própria geração de caixa”, afirma.

Marcelo Bentivoglio, sócio da QI Tech (DIvulgação)
Marcelo Bentivoglio, sócio da QI Tech (DIvulgação)

Isso não significa, porém, que a fintech está fechada para uma nova captação antes do IPO, que está nos planos para 2023. “Uma rodada pré-IPO pode acontecer. Pode ser ainda neste ano, ou no início do próximo. Mas estamos crescendo sem depender de uma rodada.”

Expansão

Com uma base de cerca de 150 clientes – entre eles, iFood, Geru, Rappi e Vivo –, a QI Tech fez R$ 4,5 bilhões em operações de crédito em 2021 e neste ano a originação média mensal está entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões — se mantiver esse ritmo, deve ultrapassar R$ 6 bilhões em operações no ano.

Em um mercado mais competitivo, o grande diferencial da QI Tech é que ela está “reinventando a roda” em vários produtos, diz Marcelo. Por exemplo, na emissão e liquidação de boletos. “Sempre houve o status quo de liquidar num dia e compensar em D+2. E isso não é verdade, consigo identificar na hora. Reconstruímos isso do zero. Aviso o cliente que boleto foi pago em 5 minutos”, conta.

A QI Tech desenvolveu uma plataforma com diversos produtos e serviços bancários, como conta escrow, emissão de dívida, emissão de boletos, análise de crédito, trava de recebíveis, entre outros. Seus clientes são fintechs, empresas de diferentes setores como varejo e telecom, gestoras de recursos e até grandes bancos.

“Somos infraestrutura, a ideia não é competir com os bancos. Queremos mostrar para o mercado que a QI é a ‘AWS para operações de crédito’. Fazemos cadastro, PLD, emissão da CCB, conta escrow, formalização de garantia, régua de relacionamento. Damos a jornada inteira, de ponta a ponta, ‘one-stop-shop’.”

Criada no início de 2018 por Pedro Mac Dowell e Marcelo Buosi como uma necessidade de atender demandas financeiras da gestora onde estavam, a Quatá Investimentos, a QI Tech foi a primeira SCD a ser aprovada pelo BC, em 2018. A fintech também chegou a tirar a licença de SEP (Sociedade de Empréstimo entre Pessoas), mas vendeu-a para a Inco Investimentos no ano passado.

Marcelo, por sua vez, se juntou à QI Tech em junho do ano passado, depois de liderar por quase 1 ano e meio a vertical de lending as a service (LaaS) da Socinal Financeira.

Cerca de sete anos atrás, ele fundou a Banfox, que atuava com crédito para pequenas e médias empresas (PMEs), num contexto em que ainda não havia a regulamentação das SCDs e SEPs. O empreendedor ainda tentou pivotar o negócio, mas acabou vendendo em dezembro de 2019 para um fundo.

Competição

O mercado de credit as a service (CaaS) vem atraindo cada vez mais players. A lista inclui nomes como BMP Money Plus, Focus Financeira (que recentemente se fundiu com a Bom Pra Crédito), Zipdin, entre outros. A Celcoin também entrou recentemente em CaaS após adquirir a Flow Finance.

No espaço de infraestrutura de serviços financeiros e bancários de modo geral, a relação de empresas é grande e inclui Dock (que vem fazendo aquisições para crescer na América Latina), FitBank (investida do JP Morgan), Zoop (que tem a Movile como acionista), Swap, entre outros.

Bancos de diferentes portes também vêm avançando em estruturas de BaaS e CaaS. São instituições como BV, Original, ABC Brasil, BTG Pactual, Itaú, HSBC, Modal, Genial e outras.

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